somos todos monstros.

8 06 2009

Me peguei imaginando o mundo onde eu pudesse conhecer todos. Me imaginei pegando o ônibus de manhã cedinho, cumprimentando o motorista de sempre e me entregando a conversas agradáveis com os passageiros de sempre. Eu me sentaria ao lado daquele cara bonito, ou daquela senhora simpática, e nós passaríamos os próximos trinta minutos num diálogo leve e descontraído. Não desejo amigos, apenas conhecidos. Conversas sobre o tempo talvez, o sobre algum time de futebol. A novela, a notícia, o frio da noite anterior. Tudo de maneira ”relax”, sem cobranças. Percebo que a meia hora que passo dentro do ônibus é tempo perdido pra mim, e pros outros. Então porque não puxar um papo gostoso com quem está ao lado? As pessoas se fecham nos seus próprios mundos,  esquecem de olhar pro lado, conhecer os outros. É como se todos habitássemos um quarto de paredes imaculadamente brancas com apenas uma janela, onde só fosse permetido olhar um de cada vez por ela. É respeito demais pra se dizer que vivemos em sociedade. Que sociedade? Que não olha seus semelhantes nos olhos, que não cumprimenta ao passar na rua, não deseja bom dia quando está de bom humor, que não avisa a um transeunte que o cadarço está desamarrado. As pessoas deviam se vestir mais com essa gentileza que nos é natural. Todos sabemos ser filhos-da-puta, eu sei. Mas também sabemos descer do salto, sabemos sim ser gentis e queridos com qualquer outro. O que nos custa um sorriso? E o que o sorriso de alguém pode nos proporcionar? Acho válido a tentativa do moço que me alertou sobre o cadarço hoje de manhã. Eu já havia reparado que ele estava desamarrado, mas esperava por uma esquina para poder parar e amarra-lo. O moço foi gentil, passou por mim, cutucou meu ombro de leve e falou entre um sorriso amarelo “cuidado com o cadarço”. Fiquei tão surpresa que só tive tempo de murmurrar um obrigada. Mas observando ele se afastar abri um sorriso de orelha a orelha, e não me contive ao cochichar pra mim mesma “você fez a sua boa ação do dia“. Ele não precisava se preocupar, eu não sou nada pra ele. Mas essa gentileza, essa proteção que ele me ofereceu hoje, ás oito e meia da manhã, serviu pra me mostrar que somos todos monstros. Mas somos monstros que podem aprender a ser heróis.








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