Ela se sente naquela antiga corda bamba. Aquela da qual ela já caiu algumas vezes, já se segurou em outras. A sensação de vazio no horizonte. Sem expectativas, sem vontades, sem sonhos. É um acordar para dormir. Um fim constante para um início prevesível, momótono, rotineiro. Ela sente como se tivesse perdido tudo. A melhor amiga, o melhor amigo, o sonho, a motivação, a esperança. Machuca a perspectiva de saber que já não se tem mais aquilo que ela tanto valorizava. Parece que todo mundo a abandonou, todo mundo a deixou pra lá. A noção de saber que ela não é o primeiro lugar no coração de ninguém, machuca. Corta tão fundo que o sangue não chega a sair. Ela não se gosta mais, ela não consegue mais nem se olhar no espelho. Ela sente que machuca quem ela gosta, que consegue quebrar laços com o medo de se machucar. Se chicoteia muito por qualquer perdão. Quase se mata ao tentar não se machucar, e quanto mais se protege mais percebe que os escudos não servem para proteger seu coração de qualquer facada, qualquer mágoa que possa perfurá-lo. E as pessoas questionam o porquê de ter um humor tão ácido, o porquê de ser tão grossa, estúpida, cavala. Ninguém percebe que o seu jeito é o modo como o mundo a moldou. Só se defende que já foi muito atacado. Só ataca quem sabe o quanto dói perder uma briga. Quem sabe o quanto dói ser magoado algumas vezes pelas mesmas pessoas. Só quem sabe o que é tentar ser o melhor e nunca receber nem o mais ou menos em troca. Só quem se joga toda fudida vez de cabeça em qualquer que seja a piscina. Por mais que ela sempre quebre a cara. É esperança demais, é vontade demais de dar certo dessa vez. Nunca dá, nunca. Ela precisa de redenção, pelo amor de Deus. Ela precisa fugir para descobrir se os problemas realmente a acompanham, como ela insisti em desconfiar.
Naquela antiga corda bamba
22 03 2010Comentários : Deixar um comentário »
Tags: abobrinhas, cinza, coração, descontentamento, frio, infelicdade
Categorias : delirios.